Avançar para o conteúdo principal

Contribuintes protestam pedindo facturas com NIF de ministros

 Depois da polémica relativa à obrigatoriedade dos contribuintes solicitarem facturas e a possibilidade de aplicação de coimas, se estes não o fizerem, esta semana surgiu uma nova forma de protesto contra o novo regime de facturação.
Trata-se de contribuintes que têm pedido facturas em nome de elementos do Governo, como seja o primeiro-ministro, com vista a que estes sejam inspeccionados pelas Finanças.
Vejamos qual o enquadramento legal desta situação e o impacto que a mesma está a ter em termos nacionais e internacionais.
Envio de facturas triplicou em 3 dias
Após as notícias relativas à obrigatoriedade de solicitação de factura por parte dos contribuintes, o número de facturas enviadas para as Finanças, pelas empresas, triplicou em apenas 3 dias. Contudo, a maioria dos consumidores (cerca de 91%) não associa o seu número de contribuinte às facturas, não obtendo, deste modo, qualquer benefício fiscal.
De acordo com vários analistas, esta situação deriva do facto da dedução corresponder a cerca de 1% (são 5% do IVA suportado) do preço do serviço, ou seja, acaba por ser apenas alguns cêntimos.
Pedido de facturas com NIF de outro contribuinte
O facto da nova lei transformar todos os contribuintes em inspectores das Finanças, uma vez que têm de pedir factura, relativamente a todas as transacções, levou um grupo de activistas, denominado “Revolução Branca”, a sugerir que os contribuintes poderiam solicitar a colocação do NIF do primeiro-ministro em facturas.
A ideia foi sendo partilhada nas redes sociais, tendo sido divulgados publicamente os NIFs de Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas, Vítor Gaspar e Paula Teixeira da Cruz (Ministra da Justiça). Ora, julga-se que estes NIFs tenham sido abusivamente utilizados em centenas de facturas relativos a transacções que os mesmos não efectuaram.
Forçar uma inspecção aos membros do Governo
O objectivo desta acção é fazer com que os visados sejam inspeccionados pelas Finanças, dado que irão ter despesas registadas em seu nome muito superiores ao seu vencimento. De acordo com dados ontem (24/2) divulgados, o NIF do primeiro-ministro já terá atingido o valor máximo de dedução fiscal possível, ou seja €250, pelo que terão sido realizadas transacções com o referido NIF na ordem dos €25.000.
Segundo as Finanças, existem mecanismos automáticos que detectam se um contribuinte gastou mais em facturas do que aquilo que ganha, sendo lançado, de imediato, um alerta, com vista à realização de uma inspecção. Naturalmente, nesta situação, tratando-se de figuras públicas, estas inspecções serão anuladas, mas o que acontecerá com um cidadão anónimo?
Usurpação de identidade
Neste caso, estamos em presença de uma usurpação de identidade, a qual, de acordo com a jurisprudência vigente, se enquadra no crime de falsificação de documentos (art.º 256.º do Código Penal). O documento – a factura – possui um elemento falso, uma vez que não foi a pessoa à qual corresponde um determinado NIF que realizou a compra.
Saliente-se que, no momento da emissão da factura, os estabelecimentos não têm poderes para identificar o contribuinte, pelo que não podem verificar se o NIF fornecido está ou não correcto.
Para controlar os movimentos, os contribuintes poderão verificar o ponto de situação do seu NIF, no Portal das Finanças, analisando o valor total das despesas efectuadas e a dedução fiscal que já obtiveram. Em caso de divergência, o contribuinte poderá interpor uma queixa-crime.
Ecos na comunicação social estrangeira
Esta forma de protesto está a ser noticiada em vários órgãos de comunicação social estrangeiros, tais como o conceituado jornal Financial Times. Para este jornal, a utilização abusiva dos NIFs é “um protesto criativo de um grupo de activistas contra a austeridade”. Também o espanhol El País dá destaque a este assunto, divulgando as novas regras de facturação existentes no nosso país.

"nahora"

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Alojamento local: autorização dos vizinhos põe em causa direito de propriedade?

"Podem os vizinhos decidir sobre o uso que faço da minha casa? Esta é a questão que está no centro de mais uma polémica em torno do regime do alojamento local (AL) e que surge no seguimento de um projeto-lei apresentado por dois deputados do Partido Socialista (PS), Carlos Pereira e Filipe Neto Brandão. De acordo com a proposta, uma das cinco que foram apresentadas no Parlamento e que pretendem alterar — mais uma vez — a lei que regula esta atividade, passaria a ser obrigatório que os condóminos/vizinhos dessem autorização aos inquilinos que queiram ter um alojamento local em casa, seja na totalidade ou apenas numa fração. Isto porque, para o PS, os inquilinos “esperam ver reunidas as condições de tranquilidade e sossego que se associam ao lar” e com um alojamento local passa a existir uma “elevada rotatividade dos ocupantes”, ou seja, menos sossego. Mas será que é mesmo preciso isto estar na lei ou será que basta os inquilinos seguirem as regras dos condomínios e terem bom s...

Apoios para Criar uma Empresa

Tem uma ideia de negócio, mas falta-lhe capital para investir? Este é um dos principais impedimentos à criação de novos negócios. Saiba onde pode conseguir financiamento e apoios para investir na criação do seu próprio emprego. Uma das melhores formas para pôr fim ao desemprego e regressar ao ativo é o recurso ao auto-emprego. Quer tenha encontrado um nicho de mercado, queira aproveitar as suas competências ou esteja a pensar tirar aquela ideia que anda a amadurecer há anos do papel e torná-la realidade, o primeiro problema com que se vai deparar é de financiamento. Existem muitas formas de ir buscar dinheiro para iniciar uma empresa. O Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) tem à disposição dos desempregados e jovens à procura do primeiro emprego, um conjunto de apoios e serviços destinados à viabilização de novos projetos empresariais de pequena dimensão. Para serem elegíveis, os projetos necessitam respeitar alguns requisitos relacionados com o valor total de inves...

O que vai mudar com a Directiva Europeia de Serviços de Pagamento

"A nova diretiva europeia dos pagamentos entra em vigor este sábado e promete enriquecer as opções de escolha aos consumidores e potenciar-lhes poupanças. A partir deste sábado o universo dos meios de pagamento promete nunca mais ser o mesmo na Europa. O dia 13 de janeiro foi a data escolhida para a entrada em vigor da Diretiva Europeia de Serviços de Pagamentos — Payment Services Directive 2 (PSD2, em inglês — uma diretiva da União Europeia, cujo objetivo é contribuir para a criação de um mercado único de serviços de pagamentos no espaço europeu. Com as novas regras, os bancos passarão a ser obrigados a partilhar a informação financeira dos seus clientes com as fintech e outros operadores rivais. Esta nova realidade promete revolucionar a forma como 500 milhões de europeus gastam dinheiro, captam financiamento e investem. Para a banca tradicional, que durante muito tempo considerou os dados dos seus clientes como “propriedade” sua, a forma como operam poderá também nunc...